Fragmentos
Machado de Assis
(Poetisas do Paraná: um século de poesia)
O criador maior da musa brasileira,
No dizer imortal de Alberto de Oliveira
Suave escultor, artista da palavra,
Esse cinzel a pedra branca lavra
Da língua que nos veio de além-mar
Cantor e mago
Todo o esplendor lingüístico se espelha,
No rico lago,
Do estilo seu, sem par.
Pintor sublime, grande, em nossa terra.
A maravilha esplêndida se encerra
Nas folhas onde corre
A pena de ouro que desliza e morre
Para acender, no céu, a pira ardente
Do ritmo fulgente.
Musicista da idéia, do pensamento,
Cada poema canta no lamento
Dos palmeirais beijados pelo vento.
Romancista sutil, grandioso, no real,
Poeta a colorir, em versos, seu ideal.
É a alma alcandorada,
Surgindo, duma luz de alampadário,
Nessa rima genial, privilegiada,
Que em pétalas de sol, vai perfumando
e, em música de amor, vai recordando
A terra do além-mar e a terra amada.
Machado de Assis é um livro aberto.
Em cada folha canta este Brasil.
É um monumento eterno, sempre ereto,
No pedestal da raça varonil.
Sorriu, cantando sempre, em lindo hino.
Cantou, sorrindo sempre, ao seu destino.
Subiu do berço humilde aos píncaros da glória,
Romantizando a escada da vitória.
Sobre os seus livros se ergue espiritual,
A pompa literária nacional.
Numa harmonia de formas e de cores,
De imagens e de flores,
As musas fiandeiras
Do belo e do esplendor te aclamam – Príncipe
Das letras brasileiras!
E foi assim construindo, o condoreiro,
Um mundo, inspiração de brasileiro.
Aquele em que o cantou Alfredo Sousa,
E que devera estar, sob a sua lousa,
No sono derradeiro.
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Esplendoroso mundo! A doce alacridade
Da inspiração – o sol a cada instante
Mundo brotado à voz do Bem e da Verdade
Invejável triunfante!
Mundo que te obedece em que andas repartido
Pois foste o criador desse imenso tesouro
Que há de falar de ti quando o teu pletro de ouro
Calar-se adormecido.
Prece
(Poetisas do Paraná: um século de poesia)
Ao inesquecível mestre Dario Vellozo
Mestre!
Quero falar, embora estiole-se-me a voz,
A sufocar-se assim nesta agonia atroz...
E todo o Paraná, que te pranteia agora,
Desolado, desfolha a saudade de outrora...
Dos dias que passaste, entre risos e flores,
Formando a mocidade, irradiando fulgores,
Pelo amor da Justiça, ó semeador de Ideal!
Criaste, ó Flamarion da idéia, um mundo astral.
Foste um artista, um poeta, um visionário,
O cavaleiro andante legionário,
Pulverizando em ouro de harmonia,
A estrada rutilante da poesia.
Mestre!
Teu “Cinerário”,
A refulgir,
Quisera, no meu estro,
Em canção de rouxinol,
A se diluir,
Num poema, ao pôr do sol.
Mas embalde, em vão, me ensinaste a cantar...
Não posso balbuciar
O que se vai no peito a silenciar!...
É pobre este meu verso,
Um canto que esmaece,
Um canto imerso
Em prece...
E que se esvai e a pena empalidece
Para exaltar o valor
Do Mestre e professor.
Porque era um Mestre aquele que guiava
Pela vereda da Ciência nua.
A mocidade, dentro em si, vibrava
Quando falava na verdade crua.
Serenidade em seu olhar fulgia.
Quando beleza na Filosofia!
Sócrates, Platão... Da Hélade eloqüente,
A luz antiga, aqui, nos reacendias.
Ó Mestre! Com que ardor tu nos trazias
Pitágoras até os nossos dias.
Não te ouviremos mais à luz do poente,
A reviver as páginas do Oriente...
Não te ouviremos mais, com nosso anelo,
O primoroso “Atlântida” que é um elo
Do passado ao presente.
Atlântida revive em tua pena
Como réstia de Sol, pura e serena.
É o mistério de um mundo
Sob esse mar profundo...
Recordaremos só em nostalgias,
O “Atlântida” que lias,
Com tanto ardor.
E, do profundo pélago, trazias,
Todo o mistério, em catadupas de ouro
O seu tesouro,
O seu valor.
A Pátria resplandece,
Numa vibrante prece,
Sob este céu de anil.
E te igualar quem pode
Nessa sublime Ode
Cantada ao Brasil?
“Conhece-te a ti mesmo”
Brasil!
Confia em tua psiquê,
Porque
Não flutua a esmo
Teu lema na bandeira,
Ó Pátria brasileira!
Mestre!
Quanta saudade, quanta,
Tu deixaste
Que ainda encanta
o coração daqueles que ensinaste!
Pássaro ideal do livre pensamento,
Asas esvoaçando ao firmamento,
Serão fanais a fulgurar consciências.
Que do passado têm reminiscências
E não fenecerá a luz que abriste
No dia em que partiste.
Toda a esperança de que não morreste,
Aqui, alentaremos,
Porque não feneceu o que colheste
No jardim de Academus
A morte reverdece
E resplandece
O ideal que refloresce.
Se lágrimas regarem teu jazigo,
Orvalharão o horto, em flor, do “Antigo”,
Vicejarão canteiros de violetas,
As flores prediletas
Dos poetas.
Tombaste, irmão e amigo!
Se uma coluna se partir contigo,
Outra se ergue no além, alcantilada,
Toda em festões de ouro
E ataviada
De Acácia, Mirto e Louro.
Mestre!
Envolve-nos na prece
Dessa imensa bondade
Que, do infinito, desce
Envolta no sendal da soledade,
A desfolhar-se na ara da amizade
E a se evolar
Da pira secular
De uma saudade...
Partiste, Irmão e Amigo!
Que a paz seja contigo!
Ode às nações unidas
(Poetisas do Paraná: um século de poesia)
A Leonor Castellano Presidente do Centro Paranaense Feminino de Cultura
Nós, estes povos das Nações Unidas,
Pela sublime paz e dignas vidas,
Estamos resolvidos,
A preservar da guerra o bem vindouro,
Os nossos filhos, esses bens queridos.
Que os seus Direitos possam ser mantidos,
Sem a violência e sem nenhum desdouro.
A nossa Carta é lídima Bandeira,
Bandeira branca de Fraternidade
Que paira, livre, pura e altaneira,
Cobrindo a humanidade.
Uma divisa só, é o grande lema
O da Justiça, impávida e serena.
E, nos valores, reafirmando a fé,
Nações Unidas, para sempre, em pé.
Respeito mútuo, condição suprema,
Seja Nação extensa, ou bem pequena.
A dádiva do forte é mais amena,
Ao dar ao fraco apoio e amizade,
Em nível de igualdade.
Igualdade social, o mundo inteiro
É um homem só, seguindo o seu roteiro.
O amor é o elo, mística torrente,
Que leva o homem sempre para a frente...
Na calcinante via da evolução,
O abatido e pobre, lentamente,
Será erguido pelo outro irmão.
Nações Unidas, conjugando aliança,
Consórcio amigo, internacional,
Para que haja rápida abastança,
Amparo, segurança,
Em ordem, harmonia, a liderança
Da vida nacional.
O mundo inteiro, ou quase, mãos erguidas,
Em defesa geral da iniqüidade.
Os povos marcham co’as Nações Unidas
Para única Nação-humanidade!
O lema de Jesus, o Redentor,
É lábaro, legítimo, de amor.
Na força do Direito, imaculado,
Surge uma estrela de Revelação.
Dessas lições, imensas, do passado,
Um brilho, intenso, de cooperação,
Dará o Norte para Redenção.
A justiça social, um ramalhete
De lindas flores, vivas, enlaçadas.
Por Deus abençoadas,
Num mesmo galhardete.
Muito carinho ao infante abandonado,
Ao velho refugiado,
Ou ao país vizinho, mal nutrido,
E pior desenvolvido.
A liberdade em si, fundamental,
A meta cultural,
Saúde, força, auxílio, proteção,
A todo o ser irmão!
Nações Unidas, cada uma delas,
Altivas, sim, serão as sentinelas,
Comércio, indústria, ciência, agricultura,
Educação, finanças e cultura.
Linha marítima, aviação civil,
No crivo mercantil.
Força, energia atômica, também,
Mas tudo para o bem!
E a ti, Brasil, ó terra do futuro!
Um galardão de ouro está seguro,
Porque a epopéia de grandiosidade,
Tens no Evangelho da Fraternidade!
Carlos Gomes
(Poetisas do Paraná: um século de poesia)
A Dora de Paula Xavier
Campinas!
Tão grande e pequenina
Para conter as asas peregrinas
Desse imenso condor.
Campinas!
De campinas verdejantes,
Lantejouladas de boninas,
Lucilantes,
Soluçando o seu amor,
Dizia assim:
Vai, divino cantor!
Abre a gaze das cortinas,
Dessas nuvens argentinas,
Esgarçando-se, sem fim,...
E vai voar, voar, por sobre os mares,
Os mares de Peri!
Levando ao mundo em festas,
A música cantante das florestas,
Dentro de ti!
Criança!
Que refulgente esperança
Te acompanhava então!
E o anjo que te seguia,
Não te seguia em vão.
Em uma nuvem, a nuança
Do céu azul se fundia
E Carlos Gomes, fugia...
Oh! fuga de alacridade
Era a fuga do tormento
E da saudade,
Era a fuga de um momento
Dentro da eternidade.
Lira tecida em flor, idealizada,
Numa poesia alada,
Subindo essa escalada,
Sem deslize.
Era a arte sublimada
Do gênio, torturada
Que subia.
Era a alma brasileira que explodia
E a Musa inspiradora obedecia.
Vai Carlos Gomes!
Ouve teu anjo imaculado!
Segue o caminho pontilhado
De espinhos e de dores.
Cobre-te o manto tauxiado
De flores.
E o seu primeiro amor feito de espumas
De sonhos, de luares e de plumas,
O destino rumava.
Rumava para o céu, abrindo as brumas,
E, na asa de uma estrela, se livrava.
“Tão longe de mim, distante”,
está minha noiva amante,
Como um lírio lá no céu,
A minha lira ardente,
Numa carícia ausente,
Há de tecer-lhe o véu.
II
E nesse exílio amargo,
Exílio de saudade de seu lar
Distante,
Chorava o desalento
De ser pobre e opulento
E só saber amar
O seu sonhar
De amante.
Que luta gloriosa,
Dentro do coração!
Quimera radiosa,
Imersa num perdão
De pai.
Genial cantor das mágoas brasileiras!
Teu estro fulgurante,
Crivando o pentagrama
De lágrimas de amor
Filial,
Bordava um diagrama,
De preces altaneiras,
Num soluçante
Ideal!
Folhas que se partiam
E esvoaçavam...
Luzes que confundiam
O mar e o céu da terra de Poti.
Sonhos que se irradiavam
Na voz do Guarani.
Tua alma cantava serenata
De piano e de violino.
Falava essa “Cantata”
Do mar esmeraldino...
Talvez essa condessa
De mãos leves de arminho,
Compreendesse,
Na evocação da “Noite do Castelo”
Florindo em seu carinho,
Um ritornelo.
E, em febre deliravas,
No sonho que sonhavas...
Ó pátria
Que deste a mão, assim, tão fortemente,
Num gesto de espontânea adoração,
A terra brasileira da poesia,
À pátria de Petrarca, da harmonia,
Numa eterna canção,
Enleaste a aurora agreste das campinas
Às misteriosas noites florentinas...
A vibração ardente, americana,
Cantando a música italiana...
E o peregrino
Ermo e discreto,
Além, além dos mares, se partia...
Levando o pedestal de uma coluna
Resplandescente o estro em “Nella Luna”.
Seria o luar da terra de Alencar
Que lhe evocava um sonho de luar?
Era o prelúdio da alma brasileira,
Era a glória do gênio, alvissareira.
III
E, numa orquestração,
Num esplendor, enfim,
Esse tumultuar,
Essa caudal sem fim,
O ribombo do mar,
Desses mares bravios
O lindo cascatear,
Majestoso, dos rios.
Era a fera bravia que, na floresta, uivava,
Era o lindo sabiá que, na mata, cantava.
Era o soar da inúbia e dos borés,
Alvoroçando as tribos Aimorés.
E o rio Paquequer que rolava furioso,
Transportando a visão de um amor misterioso.
E aquela “forza indomita” do amor,
Divinizada e bela de esplendor.
Era o luar dos olhos de Ceci,
No indecifrável lábio de Peri.
Talvez o amor da terra, juriti
Cantando, em devoção, o Guarani.
Verdi!
Que sublime expressão imortal era essa!
“E por onde eu termino esse moço começa”!
Brasil!
Esse moço genial,
Eras tu!
Era o índio bravio, a correr, todo nu,
Nessa imensa floresta, ao Sol da Liberdade,
Sob um teto de amor, desde a mata à cidade.
Era o ardente vibrar da nação sertaneja
Que, na voz do boré, diz a mágoa e flameja
Altivez e bondade!
Era do brasileiro, era a alma da raça,
Com a sua inteligência e caráter sem jaça.
Eras tu, moço, ardente, em prelúdio de cores,
Nuançando de sons o sorriso das flores.
Era um olhar, talvez, de pai que assim dizia:
Velo por ti.
Espero lá no céu, ouvindo a sinfonia
Do Guarani.
Que lânguida balada adormecia
A noiva de Peri!
Que funda nostalgia!
Do misticismo dessa “Ave Maria”.
Artista sem rival!
Naquela prece, “oh! Dio degli Aymoré”,
Era a terra de Cabral
Que se erguia de pé!
Num lírio de luar,
A lira da poesia que dourava
A alma de Alencar.
E a canção Guarani, pelo céu, se escoara,
Do sertão do Brasil ao deserto do Sahara.
IV
Gênio descomunal, cingiste a glória!
É a Pátria emocionada que te vê.
Ó filho do Brasil, tens a vitória,
Nessa emoção de Verdi e Massenet!
Que epopéia grandiosa,
É em “Salvador Rosa”,
O “Messaniello”!
O lindo pescador
De Nápoles, se abre,
Em perfume de flor.
E, nessa Itália, imensa dentro da arte,
Uma saudade azul veio falar-te
Do nosso pavilhão.
Dentro dos pentagramas,
Como gaivota em ramas,
Arfava-se, indolente,
O verde-áureo pendão
Da terra independente!
Hino da Liberdade!
O coração redime,
Na exclamação sublime!
Ó terra de meu berço!
Eu nunca mais te esqueço,
Nem me afastei de ti!
Tenho a Itália no peito,
Mas morrerei aí.
Um “Coro Triunfal” deixo a Campinas,
Hinos de luz, a cor dessas matinas.
De minha terra os pássaros canoros,
São meus sonhos mais lindos e sonoros.
O soluçar de uma canção castália
Nessa vivenda azul, dentro da Itália.
Melodias que cantam no jardim,
É a música da Pátria dentro em mim.
E de uma nostalgia inebriada
Do aroma da campina.
E beijos de Adelina,
Tua formosa amada,
Fizeste a sinfonia
De lágrimas bordada,
Uma saudade azul, aveludada...
Fósca, que renasceste na tortura
De amor e desventura,
Tange a lira que desata
Essa eterna serenata,
De “ Lo Schiavo”, nessa prece,
Que nos diz,
Da amargura que enternece
O infeliz.
Céus de Paraíba, Ó Céus!
As nuvens liriais
Sonham “Condor” e “Colombo”,
Entre rosas,
Misteriosas,
Siderais.
V
Artista genial!
Talvez...
Um amor oriental
Nascesse, aquela vez,
Da visão celestial
De tua mãe
Que, no trilho de um brejal,
Se desfez,
Em pétalas de um lindo roseiral!
Talvez agonizasse
Naquele adeus de pai,
Deixando o filho, em marcha, para a morte...
E, no Brasil, sorria-lhe igual sorte!
Talvez o amor morresse
No divinal regaço
De Diana Réggi,
A cantora do espaço,
E a musa derradeira
Adormecesse
Na última ternura,
Em lágrima e ventura.
Verdi, Gounod, Wagner, Rossini,
Num peplo constelado, te envolveram,
Na pátria de Bellini...
Glória, Gomes, aos teus cabelos brancos!
Lindo smorzar desses sorrisos francos...
Aqueles olhos, lúcidos, profundos,
Falavam nostalgias de dois mundos...
Carlos Gomes!
Findava-se uma história
De mágoas e de dor.
À pátria prometeste essa vitória
Do gênio vencedor!
Escravo ideal do amor, do sonho, enfim,
Tiveste a redenção nesse espaço sem fim.
Tiveste, ao nascer, os poemas eternos,
Sob este céu de anil!
E, no céu do Pará, cerraste os olhos ternos,
Morreste no Brasil!
...................................................................
Silenciou, afinal, o lindo arcano,
No mais alto esplendor do solo americano!